Chamada de Publicação: “Somos Todos Neuróticos de Guerra?”: perspectivas sobre política e guerra a partir da filosofia e psicanálise.

2026-04-24

       A construção do dossiê aqui proposto tem como objetivo suscitar discussões, em campos, perspectivas e teorias diversas, sob o guarda-chuva temático da neurose como um fenômeno social, psicológico e político. O que queremos dizer com isso? Durante o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026, o grupo de estudos e pesquisa FILPSI buscou discutir a neurose como um elemento que merece cada vez mais atenção, em vista dos acontecimentos dos últimos anos. Esses acontecimentos têm efeitos diversos, seja em nossas relações mais imediatas e intersubjetivas, seja por meio do consumo de mídias e ideologias diversas, ou ainda em razão das grandes mudanças nos campos político e tecnológico, que também acabam se refletindo em conflitos armados.
      Quando falamos em neuróticos de guerra, expressão que aparece no dicionário de Laplanche, estamos diante de uma noção que remete ao fenômeno da neurose traumática da Segunda Guerra Mundial. Sigmund Freud utiliza, se não a formulação exata, ao menos o conceito de neurose de guerra, podendo ser compreendida, de modo geral, como uma neurose de enfrentamento e de conflito. Assim, “neuróticos de guerra” significa, igualmente, sujeitos marcados pelo trauma, isto é, traumatizados pela experiência da guerra. Partimos da hipótese de que o campo social e as relações intersubjetivas também são altamente afetados pelos conflitos políticos mundiais em diferentes níveis, mesmo para aqueles que observam, à distância, o desenrolar de tais eventos. A reflexão e a articulação desses fenômenos tornam-se, assim, imperativas.
      A presente chamada busca pesquisadores(as) interessados(as) em discutir a neurose, a política e as guerras a partir de diferentes perspectivas, incluindo abordagens interdisciplinares, sobretudo as da filosofia, da psicanálise, da teologia, da matemática e da economia (por meio da teoria dos jogos ou da modelagem de conflitos), da história, da sociologia, entre outras. Levamos em consideração a ideia de que, ao nos debruçarmos sobre os temas da neurose e das guerras, podemos compreender não somente suas possíveis motivações, mas também seus efeitos no presente, isto é, a forma como reagimos a esses eventos, bem como o seu possível legado para a humanidade. Autores como Hannah Arendt, Frantz Fanon, Achille Mbembe, Slavoj Žižek, Sigmund Freud, entre outros, ocuparam-se de pensar a guerra sob diferentes ângulos, analisando distintos mecanismos e instrumentos de controle e violência, bem como a própria fragilidade da vida humana.
       Existe um interesse, sobretudo ético, em buscar compreender fenômenos como as guerras e suas consequências, pois estes afetam toda a sociedade de diferentes formas. Seus discursos propagandísticos são consumidos de diferentes maneiras, seja por meio da internet ou de outros meios de comunicação, como vídeos, imagens, entre outros.
      Entre os temas propostos estão (mas não se limitam a): questões éticas em períodos de guerra; o uso de tecnologias durante conflitos; a ética da psicanálise frente à guerra; os efeitos da guerra na sociedade; o papel da filosofia e/ou da psicanálise na compreensão da guerra; a responsabilidade do intelectual; o legado colonialista; violência e poder.
      A chamada receberá textos em português, espanhol, inglês e francês. A publicação do dossiê está prevista para 31/10/2026. Os textos devem seguir as normas da ABNT, conforme exigido pela revista Ecos (Faculdade Católica do Maranhão), disponíveis em: http://revistaecos.facma.com.br/index.php/ecos/about/submissions 
Referências
ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Tradução de André Duarte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.
FANON, Frantz. Peau noire, masques blancs. Paris: Points, 2015.
FREUD, Sigmund. Considerações atuais sobre a guerra. In: FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Obras completas. v. 18: O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. A relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
LACAN, Jacques. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 197–213.
MBEMBE, Achille. Políticas de inimizade. Tradução de Marta Lança. Lisboa: Antígona, 2017.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
WEIL, Simone. Contra o colonialismo. Tradução de Carolina Selvática. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.
ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.